domingo, 26 de maio de 2013

0 "Uma viagem no tempo a cidade amada".

Cheguei à redação da Tribuna do Norte cedinho, queria ver meu amigo Carlos Peixoto para conversar. Enquanto o esperava fui abrindo minha correspondência para ver os livros que estavam chegando. Peguei então este Rastros nas Areias Brancas, de José Nicodemos, Sarau das Letras, Mossoró. Ao começar a folhear o livro, minhas mãos começaram a tremer.

Uma emoção estranha foi se apoderando de mim e fui arrebatado pela leitura deste singelo livro de um conterrâneo que vi poucas vezes, mas ainda me lembro dele.

José Nicodemos escreve à maneira antiga, parnasianamente, mas para quem vive ou viveu em Areia Branca, e se importa com a memória de uma cidade desmemoriada, não existe leitura melhor. Li a introdução do professor Leontino Filho, às pressas, parando a cada vez que via um nome conhecido.

Raimundo Noronha, Manoel do Vale, Nego Veio, Antonio Militão, Chico Paula, Dimas Ramos, Doutor Willon Cabral, Dimas Ramos, Zé Filgueira… Aí eu já não conseguia conter minha emoção. A casa onde nasci ficava a uma rua da Praia de Zé Filgueira, na verdade, uma praia de foz de rio.

O livro abre com uma epígrafe do saudoso poeta Deífilo Gurgel, areia-branquense de boa cepa. Começa como um diário, textos de um homem que buscou o exílio no Rio de Janeiro e levou sua cidade querida no coração, quem não?

Aí ele começa a falar no primeiro cinema da cidade, Cine Coronel Fausto, que ficava na Rua do Meio. Não alcancei este cinema. No meu tempo já existiam o Cine São Raimundo e o Cine Miramar. Mas percorrendo as páginas de José Nicodemos é como se eu o tivesse visto mesmo.

Aliás, ler este livro é como entrar numa deliciosa máquina do tempo. O tempo de meu pai e minha mãe. O cronista lamenta o fim de um tempo, detonado pela chegada dos americanos (sempre eles) para fazer o Porto-Ilha.

Para você ter uma ideia do que estou falando, vou reproduzir um trecho aqui: “Na minha terra, era o Beco da Galinha Morta, entalado entre os fundos da Rua do Meio e da Rua da Frente. Duas casas, apenas. No canto com a praça da matriz, a casa de Caneco Amassado, cujo nome de batismo nunca soube, e no outro extremo era a casa de Caboclo, de cujo nome de batismo também nunca ouvi falar. Ou não lembro”.

O que é uma cidade sem a história de seus becos? Nicodemos persegue suas lembranças. Assim como persegue as águas dos rios: Rio Pedrinhas, Rio Upanema, Camboa de Panelada, depois Camboa das Damas, por causa das mulheres “da vida” que frequentavam suas margens para fazer sexo.

E lá vai ele se lembrando de personagens que não conheci, mas sei que meus amigos mais velhos conheceram. Chico de Neco Carteiro, o hotel de Dona Selé, o Café de Tica, Alcinda Trajano, o sapateiro Antonio Chaves, os amigos, pescadores sem nome, professorinhas que ficaram só na lembrança de menino apaixonado… Que belo livro antigo.

Depois ele vai me presenteando com nomes de ruas que nem sei se existem mais, Rua de Bagaé, Rua das Almas, Rua do Progresso, travessa dos Calafates (essas duas últimas existem ainda com os mesmos nomes). Fico pensando nos meus amigos que se foram para sempre e nos outros que preferiram ficar em Areia Branca vivendo suas vidas, criando seus filhos, bebendo, rindo e lembrando-se do passado nas tardes de lazer.

“Areia Branca era no meu tempo de menino rodeada de águas salgadas. Onde hoje é rua, era gamboa, ou camboa, como se chama lá. Não era preciso ir longe para pescar. Pescava-se mesmo dentro da cidade, quase. Era uma ilha. Ali pela volta dos anos de 1940 navios de calado raso recebiam o carregamento de sal nas salinas. Navios e iates. De certos pontos da cidade a gente os via passar rumo ás salinas. Era um cenário animado pelo vento”.

Veja que ele se distancia de seu objeto amado, “como se chama lá”.

Todos nós trazemos nossa cidade como uma fotografia na parede. Distante, desejada, mas como dói. Pois sabemos da impossibilidade de voltar. A volta, sempre dolorosa e inalcançável. Alguns amigos tentaram voltar e não conseguiram. Outros voltaram e ficaram por lá. Outros ainda vão e vêm, e voltam com o olhar estupefato de quem viu fantasmas. Eu raramente vou. Não quero ir.

José de Nicodemos me trouxe tudo isso naquela manhã comum enquanto ia folheando seu livro. Na segunda parte, dedicada a seus muitos artigos publicados em jornais de Mossoró, desponta o leitor insaciável, o homem de letras que ficou famoso um dia por ter encontrado um erro num livro de gramática, adotado pelas escolas da cidade.

Vejo que ele gosta de Carlos Drummond de Andrade, mas ainda se lembra de Humberto de Campos, um poeta parnasiano que já foi Best seller no Brasil de antanho.

Obrigado José de Nicodemos por me trazer de volta essa Areia Branca que vive escondida no fundo de meu coração.

Carlão de Souza é jornalista

* Texto originalmente publicado no jornal Tribuna do Norte


Categoria(s): Crônica

0 comentários:

Postar um comentário

 

Aldo Almeida - Direto ao assunto! Copyright © 2013 - |- Desenvolvido por: Gildson - |- seu site nas melhores mãos GSites